domingo, abril 16, 2006

TITANIC
Lee - Está muito frio.
Fleet - Pelo cheiro anda aí gelo. Sabes, sinto o cheiro do gelo quando está perto. Cheira-se antes de se ver.
Lee - Uma treta.
Fleet - É verdade que sinto. Não digo isto aos chefões, iam achar-me estúpido. Tu percebes. Somos os olhos deste navio.
Lee - Não esperes que te respeitem.
Fleet - Só queria um binóculo decente. Tenho boa vista, mas não vejo no escuro.
Lee - hoje voltei a pedir. Se pudessem, tinham-me matado.
Fleet - Eu estou farto do mar. Depois desta viagem vou para casa e caso com a minha Linda.
Murdoch - Quatro toques. Onze horas. O mar é um lago. A água parece óleo.
Lightoller - Dizia o mesmo ao comandante. Pediu para o chamarmos se as condições piorarem.
Murdoch - Onde está o outro binóculo? Já encontrou os binóculos para os vigias?
Lightoller - Não os vejo desde Southampton.
Boxhall - Os vigias não vão gostar.
Murdoch - Não quero os meus oficiais a passar um binóculo de mão em mão.
Lightoller - Vou para as minhas rondas. Boa noite, Sr. Murdoch.
Murdoch - Boa noite, Sr. Lightoller.
Boxhall - Vamos a 22,5 nós. Isto não é uma corrida.
Murdoch - Recebemos ordens, Sr. Boxhall.
O Sr. Andrews trabalhava no seu camarote. Estávamos a navegar a 22 nós, não havia nuvéns nenhumas no céu, e o mar estava liso. Nada para ver, nada para ouvir, excepto o barulho distante da proa a cortar a água. Isso e os toques de meia em meia hora, com o vigia a gritar: Fleet - Tudo está bem!
Claro que ele desconhecia a armadilha mortal que tinhamos diante de nós. E assim se passaram cinco toques, seis toques e sete toques. De súbito, Fleet viu qualquer coisa mesmo na direcção da proa, algo mais escuro do que a própria escuridão. A princípio parecia pequena (mais ou menos como duas mesas juntas, pensou), mas a cada segundo que passava ia aumentanto de tamanho, e estava cada vez mais próxima. Sem demora, Fleet deu três toques de sineta, um sinal de perigo a vante. Mal tinham passado dez minutos após o último toque quando se ouviu um som estridente no sino do cesto da gávea seguido de um grito do vigia: Fleet - Neblina no horizonte. Há gelo ali adiante. Cristo! Esta agora! Atendam sacanas! Ao mesmo tempo ligou para a ponte.
Fleet - Está aí alguém?
Moody - Sim. Que está a ver?
Perguntou a voz calma do outro lado do fio.
Fleet - Um icebergue mesmo à nossa frente! A menos de uma milha!
Moddy - Obrigado. Icebergue adiante!
Murdoch viu o gelo práticamente ao mesmo tempo que o vigia e gritou: Murdoch - Tudo para estibordo! Sr. Hitchens! Vira! Vira! Depressa! Marcha a ré a todo o vapor!
Era prática habitual os maquinistas aquecerem a sopa no tubos de vapor quando o Maquinista Chefe Bell dá a ordem:
Bell - Para trás, a todo o vapor!
Hitchens - O leme foi até ao fim! Está no máximo!
Moody - O leme está no máximo!
Bell - Vamos rapazes. Baixar a pressão do vapor! Baixar o vapor!
Barrett - Fechem todas as comportas! Fechem-nas!
Bell - Esperem! Aguentem! Agora! Inverter movimento do motor!
Durante os 37 segundos seguintes, Fleet e Lee mantiveram-se juntos em silêncio, olhando a montanha de gelo cada vez mais próxima. Estavam quase em cima dela e o navio mantinha o rumo.
Fleet - Por que não está a virar? Vira!
Murdoch - O leme está no máximo?
Hitchens - Está no máximo.
Murdoch - Por que está a levar tanto tempo? Vira! Vira! Anda lá. Vira, filho da mãe, vira! Vá... Vá! Vira! Vá lá... sim...
A montanha de gelo elevava-se, húmida e brilhante, acima do castelo da proa, e os homens prepararam-se para o choque. Então, no último momento, como por milagre a proa rodou um pouco mas não o suficiente e bateu.
Edward - Vai embater!
Fleet - Estamos perdidos!
Murdoch - Chocámos com ele!
Embateu com o lado de estibordo. Pedaços enormes de gelo caíram no convés da proa.
Fleet - Meu Deus.
George - Que foi isto?
John - Esbarramos em alguma coisa. Pareceu-me uma pancada. Que aconteceu?
A minha mãe estava a dormir e disse que acordara com o estrondo. Esse ruído ouviu-se três vezes e depois parou. Sentiu o embate, que parecia um trem a entrar na estação, um esticão. E soube de imediato que era aquilo que ela tanto receara.
Barrett - Mexam-se, não pode entrar água nas caldeiras.
Murdoch - Tudo para bombordo!
Moody - Para bombordo.
John - Para trás!
Murdoch - Vou fechar as portas estanque!
Barrett - Vamos! Vão fechar as portas! Saiam! Saiam da porta! Vamos, rapazes. Vamos! Vão saiam!
Quando saí para o convés dos passageiros, vi uma coisa enorme e cinzenta. Parecia-me um prédio a flutuar, uma coisa enorme e cinzenta. Mas esse prédio não parava de embater na amurada e conforme batia largava pedaços de gelo. O meu pai esticou o braço para lhe tocar. A minha mãe subiu ao convés superior, olhou para o icebergue e deparou-se com uma enorme montanha branca. O painel indicador das portas estanque estava aceso, isso transmitiu uma ligeira segurança aos oficiais.
Margaret - Ei, filho, que tal um pouquinho de gelo?
- Sim, madame, trago já.
Fleet - Meu Deus! Foi por pouco!
Lee - Com que então sentias-lhe o cheiro!? Minha Nossa!

3 comentários:

lorenna disse...

OI MÁRIO...
COM SEU CONTO, ME SENTI COMO SE ESTIVESSE PRESENCIANDO O CHOQUE CONTRA O ICEBERG...
MUITO TRISTE E DESESPERADOR...
PARABÉNS...
VOCÊ FAZ MINHA IMAGINAÇÃO VOLTAR A 14 DE ABRIL DE 1912...
O NAUFRÁGIO DO TITANIC É UMA PROVA DE QUE O HOMEM NADA PODE CONTRA DEUS E A NATUREZA...
BEIJINHOS...
NÃO PERDEREI OS PRÓXIMOS CAPÍTULOS...

Alencar disse...

Concordo em número, gênero e grau com a Lorenna.
Simplesmente fantástico o episodio de hoje.
Adrenalina total.
Parabéns, sabes como prender uma atenção, e esta música, excelente.

lorenna disse...

obrigada pela visita...
beijos