segunda-feira, abril 17, 2006

TITANIC
Dorothy - Esta é a sala de estar.
Edward - É tão... simples.
Dorothy - Irónico. Este é um dos quartos.
Edward - O camarote está muito florido.
Dorothy - São rosas. O meu patrão ofereceu-as à esposa, parece que tiveram um noite cheia de amor nesta cama.
Edward - Os lençóis são novos!
Dorothy - Sim, é avassalador, adoraria deitar-me sobre eles...
Edward beijou a Dorothy, as cenas de amor que ali aconteceram apenas ficaram entre os dois, guardadas para sempre no fundo do mar. Contudo a situação no deque dos botes não era das mais animadoras para a tarde de Domingo maravilhosa que estava.
David - Olá, Richard.
George - David, diga logo o que quer.
David - Espero uma resposta. Quero o acordo.
Camille - Não há acordo possível. Desiste, não vamos ceder às tuas chantagens.
David - Nem mesmo por estas cartas? «Meu querido David, um filho nosso vem a caminho, aguardo notícias tuas.» «O fruto do nosso amor, que brota dentro de mim e que será para sempre o elo que nos une.»
George - Como te atreves?!
Richard - O que se está a passar, que filho é esse, pai?
John - Anda, Richard, vamos ter com o Sr. Andrews e levar o Charlie à tua avó.
Hellen - Não, não vão a lado nenhum! É isso mesmo que ouviste, Richard. O teu pai é este senhor aqui, David Fraser! O George Barks nunca foi teu pai.
Richard - Pai, o que ela está a dizer? É verdade? Diz-me que não é verdade!
David - Olha estas cartas, Richard! Eu sou teu pai.
Eu estava nervoso, odiei aquele homem, o que eu mais queria era que ele desaparecesse daquele navio por me ter magoado em relação ao pai que eu sempre tinha conhecido. Num ataque de fúria dirigi-me para ele, arranquei-lhe as cartas das mãos e atirei-as borda fora.

David - O que estás a fazer miúdo maldito!? Devolve-me isso!

Richard - O senhor não é meu pai! Agora não tem como provar nada!

Hellen - Mal educado!

O Charlie defendeu-me e atacou a saia da senhora Fraser.

Hellen - Meu Deus, livrem-me deste animal!

John - Charlie, aqui!

O aparato foi suficiente para despertar as atenções de outros passageiros que por ali passavam.

Camile - Richard!

George - Richard, espera! Ainda me paga por esta, David! Ainda hoje!

David - Estas cartas que se perderam são apenas um terço das que a Camille me enviou, ela sabe disso!

Eu saí dali a correr, só parei a meio do corredor da coberta A quando o meu pai George me apareceu pela frente.

George - Hey hey, espera, onde vais? Estás a chorar, meu pequeno.

Richard - Não sou idiota. Eu estou bem. Vou ficar bem, a sério.

George - A sério? Não me parece. Richard, quem te amava ainda tu estavas dentro da tua mãe, fui eu. E amei-te ainda mais quando te vi nascer. E dei-te todo esse amor para te tornares nesse lindo rapaz que és hoje. Richard, pai é aquele que ama.

Richard - George... pai. És o meu pai de coração nunca conheci outro pai na minha vida.

George - Dá-me um abraço.

Richard - Quando chegarmos a New York levas-me ao Luna Park ao «tiro e queda»?

George - Claro que te levo.

Richard - E deixas-me andar na montanha russa?

George - E andar a cavalo.

Richard - De camelo. Podemos acampar neste Verão junto a um rio, nunca fizemos isso.

George - Ou de um lago para tomar banho.

Richard - E atirar pedras ao lago e fazê-las saltar.

George - Sem irem ao fundo?

Richard - Claro, se o Titanic é mais pesado que uma pedra e não se afunda...

George - Podiamos ir ao Carrocel.

Richard - O Carrocel do nosso Titanic é bonito. Pai, na quinta-feira quando estava com a mãe encontrei um lugar bonito. Gostaria de te levar lá também. Fecha os olhos, vem comigo, dá-me a mão. Não olhes.

George - Estou curioso.

Richard - Agora abre.

Na coberta A, a parte aberta junto do mastro de popa era um dos locais mais bonitos para se estar. Aqui os passageiros de primeira-classe podiam passear ao ar livre, com pouquíssimos obstáculos entre o seu olhar e o céu ou o horizonte marítimo.

George - É muito bonito...

Richard - É, não é? Vemos todas a nossa vida.

George - É lindo, ficava aqui para sempre.

Richard - Vês a noite lá ao fundo? Vai apanhar-nos. Dia e noite sucedem-se, pai. O que hoje é motivo de tristeza para nós amanhã será de alegria... Temos de aproveitar cada dia como se fosse o último e é bem verdade.

Camille - Richard, George. Procurei-vos por todo o lado.

John - Calculámos que tivessem vindo para aqui.

Foi a última vez que o Titanic viu a luz do dia. Não sei se, pelo facto de ser Domingo, foi um dia fabuloso, o melhor de toda a viagem. O tempo estava calmo sem nuvéns e o frio era intenso. Tudo parecia um sonho, era bom demais para ser verdade. Acho até que a melhor ementa foi a que foi servida naquele Domingo, filet mignone lili, pombo assado, pato assado com molho de maçã, enquanto que na terceira-classe serviram papas de aveia, carnes frias e pikles. A viagem estava quase a chegar ao fim e ninguém tinha dúvidas que tinha sido um êxito e tinha-se já a certeza de que se viajava no maior paquete do mundo e também no mais deslumbrante e requintado de sempre.

1 comentário:

Alencar disse...

Nossa, belo gesto do menino Richard.

Como disse no post anterior, esse David é um cretino mesmo.

Agora lendo o final da história de hoje, dá até um frio na barriga, pois todos os sonhos estam para terminar.

Já sabemos o que acontece, mas sempre que leio isso tenho uma sensação de perda, de tristeza.

Parabéns Mário, tá excelente a sua história.