quarta-feira, abril 19, 2006

TITANIC

As pessoas olhavam para eles, lembravam-se do que se tinha passado naquela noite de quinta-feira.

Camille - Estou de coração partido. Reparaste como olham para nós?

George - Nestas alturas é melhor não ter coração.

Camille - George, o David está a conseguir o que quer... estou com medo.

George - Mas medo do quê, meu amor? Desde que embarcamos neste navio que não dormes uma noite completa. Não há nada a recear, tudo vai ficar bem.

Camille - Não sei, desde o início que sabia que havia algo a recear.

George - Nada há a recear. Esta noite, mostra a todos o anel que te dei... Tenho a certeza que vai calar a boca de muita gente.

Os meus avós estavam nas espreguiçadeiras no convés A a ler um pouco...

Harriett - Sinceramente, onde já se viu, largar uma mulher para se casar com outra, é mais nova que os próprios filhos dele! E o Guggenheim vai pelo mesmo caminho, uma cantora parisiense! De Paris, eu só trouxe o meu pequenino Charlie, não é fofura? A nossa filha saiu-se bem, não achas Arthur? Arthur? Acorda!

Arthur - O que foi?

Harriett - Adormeceste na cadeira, deixaste-me a falar sózinha e ainda perguntas o que foi? Endireita essas costas! Olha a nossa filha.

Camile - Mãe.

Harriett - Vamos para o chá?

George - Vai, eu vou com o senhor Morgan tomar um brandy, aceita o convite?

Arthur - Ainda bem que me convida, meu genro.

George - Vemo-nos logo.

Harriett - Onde estão os meus netos?

Camille - Está com a ama mais o tio. Depois eles vão ter ao salão. Até já, George.

Arthur - Mulheres... uma raça difícil de entender.

George - Venha daí.

Madeleine - Senhora Fraser... Parece aborrecida...

Hellen - E tenho razões para isso. Julgo eu. Senhora Astor...

Madeleine - Chame-me Madeleine.

Hellen - Madeleine, posso falar consigo um instante? Sinto que vou rebentar. Vamos sentar-nos?

Madeleine - Claro.

Hellen - Como foi o divorcio do senhor Astor?

Madeleine - Foi doloroso para todos. Senti-me culpada. Mas partimos numa nova aventura e tento olhar em frente. Está a pensar em divorciar-se?

Hellen - Não era capaz.

Madeleine - Pode entrar num acordo com o seu marido.

Hellen - Ele nunca abriria mão de nada. E eu seria incapaz de o magoar.

Madeleine - Está apaixonada por ele então... não está?

Hellen - Amo-o há muito anos. Mas ele só tem olhos para uma outra mulher. Lá vem ela.

Madeleine - A senhora Barks? Mas ela é uma senhora casada!

Hellen - E bem casada, tem um marido que a ama, dois filhos maravilhosos, uma fortuna, ela tem tudo para ser feliz, e destrói ainda a felicidade dos outros. Os homens perdem a cabeça quando as mulheres se atiram a eles.

Madeleine - Hellen, não diga isso. A Camille ama demais o marido. Estas coisas parecem não ter solução, mas acaba por acontecer algo que as resolve. A vida é tão curta, Hellen. Temos muito pouco tempo. Nunca se sabe o dia de amanhã...

John - Dorothy, posso fazer-te uma pergunta?

Dorothy - Sim, diga.

John - Tenho reparado. Estás apaixonada, não é?

Dorothy - Mentiria se lhe dissesse que tenho o coração vazio. Mas não é verdade, penso que sim, apaixonei-me.

John - Consegue-se perceber, pelos teus olhos.

Dorothy - Mas deixei uma família inteira sem saber onde estou, nem para onde fui.

John - Ninguém sabe que estás no Titanic? No maior navio do mundo?

Dorothy - Não.

John - Devias ter tido orgulho nisso, devias enviar um telegrama a avisar que estás aqui! Anda, vamos ter com a Camille, amanhã tratamos de avisar a tua família: «Mãe, pai, estou a viajar no maior navio do mundo! O Titanic!» Eles vão adorar saber.

Harriett - Importa-se de me passar o chá?

Lady Gordon - E o que dizer de Matah Hari!?

Harriett - O mundo está perdido!

Lady Gordon - Este e o outro.

As senhoras davam risadas pequenas, a minha mãe estava sentada junto com elas quando chegámos. Ela estava atenta numa outra conversa que decorria mesmo ao seu lado.

Capt. Smith - Sr. Ismay, disseram-me que discutiu o comando do navio em Queenstown com a minha tripulação.

Ismay - Sim, no tocante à velocidade. É um direito meu como director. Ainda não acendeu as últimas quatro caldeiras.

Capt Smith - Não vejo necessidade. Vai tudo bem. As máquinas estão a aguentar-se e as caldeiras também. O navio mantem-se firme, e temos energia de sobra. Estamos a fazer um tempo excelente!

Ismay - A imprensa conhece o tamanho do Titanic. Quero que fiquem maravilhados com a sua velocidade. Temos de lhes dar algo novo para publicarem. A viagem inaugural do Titanic tem de vir nos cabeçalhos!

Capt Smith - Sr. Ismay, preferia não forçar os motores até estarem suficientemente rodados. Estava a pensar numa coisa diferente para o Titanic?

Ismay - Claro que não. A companhia tem a maior confiança no senhor. Sou apenas um passageiro. O senhor decide como quiser. Mas seria um final glorioso para si chegar a New York na terça à noite e surpreende-los. Sairia nos jornais da manhã. Era uma retirada em beleza, não acha? Muito bem.

Eu ouvi o senhor Ismay. Foi o senhor Ismay que falou. Ouvi-o falar da corrida. Ouvi:

Ismay - Hoje fizemos melhor que ontem, amanhã faremos uma corrida melhor.

E depois ouvi-o afirmar:

Ismay - Vamos bater o Olympic e chegaremos a New York na terça-feira à noite.

Capt Smith - Não vejo qual o interesse de chegarem um dia mais cedo.

Ismay - E eu não vejo qual o interesse de demorar o tempo dum navio inferior.

Capt Smith - Se houver discussões quanto ao comando do navio, consultem-me. Pode ser a minha última viagem, mas ainda sou o comandante.

2 comentários:

lorenna disse...

OI MÁRIO...
PARABÉNS PELA BRILHANTE HISTÓRIA!!!!
BEIJOS
BOM FIM DE SEMANA

Alencar disse...

Nossa, deve ser difícil rever as pessoas depois de um escândalo tão grande.

Se fosse comigo fazia igual tatu, enfiava em um buraco qualquer e só saia depois do término da viagem. E olha que o término não esta tão longe assim, hehe.